Wednesday, December 5, 2007

A Morte em Directo!

O acto de comunicar em rádio contém uma multiplicidade de registos, funções e expressões que estão interligadas e que criam uma teia de comunicação, a que muitos chamam de… “magia”.
Vou ter todo o prazer de escrever sobre isto, um destes dias, quando, o que tiver para dizer, não estiver conspurcado com alguma vergonha. Não é o caso.

Basicamente (como alguém diria) há, no vasto mundo dos “rádio-comunicadores”, os jornalistas (editores, narradores, pivots, repórteres etc. e tal) e os animadores (locutores, entretainer’s, humoristas, voz-off’s, e afins). Sabemos, também, que estamos a falar de dois mundos pouco (em alguns casos, nada) compatíveis.
Se em boa verdade, os primeiros assumem um papel importante, informando e narrando factos, sob determinadas regras e princípios éticos, a importância dos segundos deve ser respeitada e reconhecida como uma componente de comunicação complementar e não alternativa à primeira.

Pobres daqueles, que oscilam entre estas duas variantes, sem saberem muito bem como comunicam e para quem o fazem.
E há aqueles (piores, digo eu), quais “jornaleiros” disfarçados de jornalistas, que, vestem a pele de actores que é típica dos entretainer’s, para informar num registo desviante, mas objectivo na perspectiva do “voyeurismo”.

Um repórter de rádio, que cobre um determinado acontecimento, tem a árdua tarefa de retractar o que vê, sem recurso a imagem, usando com competência o jogo de palavras, no registo adequado. Chamo a isto Técnica de Expressão.

Os melhores repórteres fazem-no com mestria, os “jornaleiros” teimam em fazê-lo a actuar, a comover-se e a escolher registos que me fazem corar de tão ridículos.

Convenhamos:
Orson Welles, houve um na história da rádio.
Arriscou e ganhou, mas esse… era genial!

PS – Um jovem de 23 anos perdeu a vida de forma brutal. O resto interessa?

Posted by Pedro Costa at 23:33:26 | Permalink | No Comments »

Realidades diferentes

Foto Nuno Gonçalves/UMDicasUm dos perigos que corremos frequentemente é meter tudo no mesmo saco, achar que a realidade é a preto e branco. No jornalismo, e em Braga em particular, também há uma escala de cinzentos que não podemos ignorar. Não há o “jornalista-tipo”. Quando muito há alguns perfis. Há jornalistas do quadro, há jornalistas a receber à peça (recebem em função dos trabalhos que vêem publicados, mesmo que tenham apresentado mais artigos), há jornalistas com avenças, há jornalistas a ganhar muito mal, mal e razoavelmente…

Uma das principais divisões que se pode estabelecer é entre os jornalistas que trabalham para os órgãos de comunicação nacionais (sejam do quadro, correspondentes, colaboradores ou outra coisa do género) e os “media” locais (regionais?).

Regra geral, os jornalistas dos nacionais andam sempre preocupados com a dificuldade que têm para “meter as peças”. Aparentemente nunca há espaço para o que se passa por cá, o que nos deve fazer reflectir sobre os critérios de noticiabilidade* desses órgãos de comunicação. Quem lê fica com a impressão de que a geografia ainda conta muito na hora de decidir o que é que é notícia, da mesma forma que se mantém a velha máxima do “más notícias são boas notícias”.

Neste casos, as peças são feitas e refeitas. Um jornalista de um jornal nacional pode muito bem apanhar um susto na manhã seguinte ao ver aquilo em que o seu artigo se transformou. O editor é um ser mais ou menos distante, muitas vezes descrito como carrasco ou insano.

Os correspondentes, colaboradores, avençados ou como se lhes quiser chamar dos nacionais acabam por desenvolver estratégias de sobrevivência. Aparentemente usar o silêncio como alma do negócio é uma delas, embora este jogo do gato e do rato com os editores me pareça absurdo se o objectivo é melhorar a organização do meio onde se trabalha. E se todos resolverem começar a trabalhar em segredo? E se todos decidirem tratar a mesma estória? E se o editor achar que não interessa?

No extremo oposto temos os jornais locais/regionais, nos quais o trabalho dos jornalistas se mede ao quilómetro. Há jornalistas que, em alguns dias, têm mais de meia dúzia de páginas para encher. E “encher” é a palavra certa. Quando se pede a uma pessoa que mantenha este ritmo de produção, a ordem natural das coisas é para, pura e simplesmente, preencher a página com o que aparecer, de preferência por e-mail porque o tempo passa e é preciso cumprir as horas de entrega do material.

Fazer jornalismo de qualidade exige trabalho de terreno, investigação, confrontação de fontes, maturação… Quando um jornalista, por mais rápido e eficiente que seja, tem de apresentar várias páginas ao fim do dia, não pode obviamente fazer milagres. Alguma coisa tem se ser sacrificada. E normalmente é a qualidade. O que dizer, então, dos critérios de noticiabilidade?

Nestes casos, o editor está próximo. Não é o carrasco que dita ordens a centenas de quilómetros. Mas normalmente há mecanismos de controlo de qualidade pouco eficientes. Um jornalista da imprensa local/regional também pode apanhar um susto na manhã seguinte ao ver o que vem assinado com o seu nome: as gralhas e os erros que ninguém conseguiu detectar antes da impressão.

Na hora de avaliar o trabalho de um jornalista – e há desde o péssimo até ao excelente – é preciso ter presente o contexto no qual ele desenvolveu o seu trabalho. Sob pena de, injustamente, acharmos que a culpa é sempre dos jornalistas.

*Segundo Nelson Traquina, no livro “A Tribo Jornalística – Uma Comunidade Transnacional”, o conceito de noticiabilidade pode ser definido como «o conjunto de critérios e operações que fornecem a aptidão de merecer um tratamento jornalístico, isto é, possuir valor como notícia. Assim, os critérios de noticiabilidade são um conjunto de valores-notícia, que determinam se um acontecimento ou assunto é susceptível de se transformar em noticia, isto é, ser julgado com merecedor de ser transformado em matéria noticiável, por isso, possuindo “valor-notícia” (newsworthiness)».

Posted by Luísa Teresa Ribeiro at 15:55:33 | Permalink | Comments (3)

Vamos Lá

Para não destoar do tom adoptado em anteriores posts,  começo com uma citação de Óscar Wilde: “o jornalismo não é legível, a literatura não é lida”. Depois pego em algumas ideias da Drª Luísa para uma reflexões rápidas. Ideias que podem justificar a citação acima reproduzida e com a qual eu gradualmente me vou identificando.

“Os jornalistas bracarenses, trabalham muito, trabalham demais”. Concordo em parte: podem trabalhar muito e demais mas falta saber se com qualidade e se toda essa energia despendida não é fruto de desorganização. Esta ideia entronca noutra da qual eu estou profundamente de acordo: ” É igualmente verdade que reflectem muito pouco sobre a sua prática quotidiana. Os hábitos adquiridos na rotina diária são eternizados quase acriticamente. Quem discorda, sai. Quem fica, aguenta”.

Ora se os jornalistas são muitas vezes vítimas das visões, como direi, limitadas? dos editores são também eles próprios produtos de um trabalho, muitas vezes muito pouco profissional. Tenho para mim que, às vezes, o segredo é a alma do negócio, mesmo de editores falando. Isto é, entre a intenção de se fazer um trabalho e a sua efectiva realização há um período, mais ou menos longo, de nojo. Se um jornalista em vez de divulgar aos seus editores as suas intenções começar apenas a referir-se às suas realizações, o tempo e qualidade do produto final aumenta imediatamente. É verdade que quando o pedido vem do editor, os prazos e os timings são carrascos porque a pressão diária para a finalização do trabalho é muita. Mas aí entra, na minha opinião, uma coisa que não se vê muito nos jornalistas que é discernimento.

Outro aspecto que urge ultrapassar e abolir definitivamente é que tudo o que chega à redacção é noticia, logo passível de ser publicado. É atroz ver a quantidade de coisas que são publicados ipsis verbis, sem qualqer tratamento, sem qualquer critério e sobretudo, sem terem uma componente noticiosa. Uma noticia hoje é, na maioria das vezes, mais noticia amanhã. E uma notícia publicada hoje é muitas vezes uma não notícia. É altura dos jornais deixarem de ser caixas de ressonância (e são-no, infelizmente, cada vez mais) de poderes e interesses, de mails e faxes com informações tontas. Honestidade é o que se pede.

Não pactuo com gente conformada e “acrítica”. E um jornalista, nesta matéria, não tem desculpa. Por muitos poderes e pressões que sofra.

Posted by Pedro Antunes at 11:33:41 | Permalink | Comments (2)