Sunday, December 16, 2007

A decadência, os parasitas e o futuro do jornalismo

Nicholas Carr em entrevista ao Público

(…)
Acha que isto será o fim da imprensa tradicional?
Nos EUA, vemos uma mudança em massa de leitores e de anunciantes dos jornais tradicionais para a Web. Haverá sempre jornais, mas serão provavelmente menos e serão lidos por muito menos pessoas. E a maioria das empresas jornalísticas irão mudar-se basicamente para a distribuição de notícias através da Internet.

O problema é que entregar notícias online com anúncios personalizados é um modelo muito diferente da entrega de notícias num amontoado dentro de um jornal, com anúncios generalizados.

(…)
É errado pensar que avançar para o modelo da web é avançar para melhor. Consegue-se muito material e consegue-se de graça, mas não quer dizer que seja tão bom como aquele a que estávamos habituados.

Será o fim do jornalismo como é feito hoje?

O fim do jornalismo é muito forte, mas será a decadência do jornalismo, e podemos ter um período de sistema elitista, em que alguns jornais caros serão lidos por um número muito pequeno de pessoas. E depois, o grosso da imprensa estará na Web.

Os bloggers serão também jornalistas, mas de uma forma diferente?

Sim, o único problema é que não têm os recursos para fazer grandes reportagens, por isso escrevem apenas opiniões.

Considera que são como parasitas?
No sentido de que a maioria dos bloggers não cria histórias originais ou material original, comentam histórias publicadas noutros sítios. Não é necessariamente mau, podem ter perspectivas interessantes e muitos têm-nas. Mas muitos poucos bloggers fazem reportagens originais.

Nicholas Carr
Ex-director da Harvard Business Review.
Autor de “Does IT Matter?”. “Big Switch” é o nome da obra que vai ser lançada em Janeiro nos EUA.
É possível encontrá-lo em Rough Type

Aqui em entrevista a Inês Sequeira, do Digital (Público)

Posted by Luísa Teresa Ribeiro at 13:35:48 | Permalink | Comments (1) »

“Não temos pedal”

Leio sempre deliciada o Vítor Pimenta, d’O Mal Maior, especialmente na Avenida do Mal, onde o domínio do Português é o instrumento perfeito para dar voz às ideias. Li, com gosto, um texto em que ele fala da importância dos blogues e da comunicação social, tendo por base o exemplar Avenida Central. Permito-me, a partir daí, problematizar alguns aspectos.

Os blogues não são meios de comunicação social no sentido estrito do termo, uma vez que não têm de cumprir uma série de regras a que os “verdadeiros” estão vinculados. Os bloggers não estão obrigados a um conjunto de normas que todos os jornalistas deveriam cumprir, entre as quais está a auscultação de todas as partes ou o dever de isenção no tratamento da informação, embora a Entidade Reguladora da Comunicação já tenha dado indicações de que também poderá passar a intervir na blogosfera.

Não sendo legalmente meios de comunicação social, sem dúvida que os blogues são um desafio para os meios de comunicação social. São um elemento novo, que obriga os “media” tradicionais a repensarem as suas rotinas diárias. Que obriga os jornalistas a questionarem o seu papel e os seus métodos de trabalho. Que está permanentemente vigilante em relação ao que se passa. Que exerce o escrutínio necessário para a desejável melhoria da qualidade…

Desde logo, os “media” devem olhar para a questão dos temas que incluem na sua agenda. Embora muitos blogues continuem a ser repositórios de questões pessoais, que não têm interesse do ponto de vista jornalístico, outros há que são o barómetro de uma comunidade, na medida em que são a face visível da participação cívica de um grupo mais ou menos vasto de cidadãos. Os “media” não podem, portanto, ignorar as agendas da blogosfera. Só que isso exige tempo, muito tempo, tempo que os jornalistas não têm quando as “máquinas” em que trabalham lhes exigem uma produção de milhares de caracteres por dia ou histórias mais ou menos bizarras para “encher” os olhos ou ouvidos dos leitores/espectadores/ouvintes.

Mesmo que os jornalistas estejam atentos – e não é tão certo que assim seja, uma vez que ainda existe em muitos profissionais uma arreigada indiferença pelos “maluquinhos que não têm mais nada que fazer a não ser passar o dia nos blogues” – há uma questão incontornável: o factor tempo. Um jornal tradicional, sem uma edição online, não consegue competir com a actualização permanente da blogosfera.

Um exemplo? O Diário do Minho publicou na passada sexta-feira uma carta de um leitor, isto é, na edição imediatamente a seguir à sua recepção. Só que esse texto foi discutido no Avenida Central no dia em que o autor o enviou, ao mesmo tempo, para as entidades competentes, meios de comunicação social e blogues.

Os bloggers têm também uma liberdade que os jornalistas não possuem. Quando um jornalista se propõe pegar em determinada “estória” tem de fazer a auscultação de todas as partes implicadas, o que não é tarefa fácil, especialmente quando estão em causa assuntos delicados. Ora, mesmo que tenha boa vontade, o jornalista necessitará sempre de mais tempo para tratar uma questão do que o blogger. E, para além disso, o blogger pode dar a sua opinião (pode até só dar a sua opinião), enriquecendo o texto. O jornalista não deve fazê-lo, pelo menos não no mesmo artigo, porque informação e opinião são coisas distintas.

Os bloggers têm uma mais-valia em relação aos jornalistas: são provenientes de diversas áreas do conhecimento e vivem no mundo real. O pior sítio onde se pode estar para saber novidades é numa redacção, longe do mundo. E há jornalistas que são “pássaros de gaiola”, a escrever quase permanentemente de fundilhos na cadeira. Podem até dar o essencial da informação, mas jamais conseguirão transmitir as imagens, os sons, os cheiros de quem esteve no local.

São alguns destes que vegetam nas cadeiras que, por vezes, se aproveitam do trabalho alheio. Mais do que fontes de inspiração, os blogues passam a locais onde é fácil colher textos e fotografias. Estão ali à mão de semear, como se aquele trabalho fosse propriedade colectiva. Alguns repetem com a blogosfera o que já faziam com outro material com direito de autor: “copy” e “paste”. Simplesmente condenável.

Apesar de tudo, se virmos bem, muito do que alimenta os blogues é retirado dos meios de comunicação clássicos…

Mais do que concorrentes ou alternativas, eu vejo os blogues como um desafio, como uma oportunidade única para os meios de comunicação e para os jornalistas reflectirem. Mas com a consciência de que, como dizia um grande amigo jornalista, em alguns casos, “não temos pedal para eles”. Para o Avenida possivelmente não…

Posted by Luísa Teresa Ribeiro at 02:58:58 | Permalink | Comments (1) »