O serviço público de televisão esteve em debate no último Trio de Jornalistas. As principais ideias defendidas por Luísa Teresa Ribeiro e Pedro Antunes Pereira sobre esta matéria apontam para a necessidade de uma aposta na qualidade, sem cair no elitismo ou perder o contacto com a realidade das pessoas. Na informação, exige-se melhor cobertura das regiões e produção própria, em vez de trabalhos decalcados de outros órgãos de comunicação social. Ficam aqui aqui alguns dos argumentos.
Sou a favor do serviço público de televisão, mas não a qualquer preço e de qualquer maneira. Temos de pensar quanto é que custa, pois não podemos estar a fazer um serviço público em que o buraco financeiro vai aumentando infinitamente.
Também não podemos estar, sob a capa do serviço público, a fazer programas de má qualidade, que, se olharmos bem, têm muito pouco de serviço público.
Com a discussão do contrato público de concessão e com a televisão digital terrestre, esta será uma oportunidade de repensarmos o que está a ser feito.
Na RTP, creio que tem sido feito um esforço para melhorar o que é “servido” aos telespectadores, mas ainda há um longo caminho a percorrer.
Luísa Teresa Ribeiro
Em relação ao serviço público, tenho o meu coração divido em duas partes. Acredito, por um lado, que tem que haver algum serviço público que dê prejuízo. Eu acredito que haverá dívida no serviço público. Mas, por outro lado, também acredito que o serviço publico não pode ser uma coisa muito distante da realidade das pessoas.
Os mais recentes exemplos de serviço público, que são o programa sobre a guerra, de Joaquim Furtado, e o retrato social de Portugal, de António Barreto, têm de coabitar com um programa que eu gosto muito, e que acho que também é serviço público, que é o Preço Certo em Euros.
Pedro Antunes Pereira
O que normalmente acontece é que ou se opta pelo elitismo e se perde o contacto com as pessoas – e aí estamos a fazer serviço público para ninguém – ou se opta por coisas muito mal feitas. Entre o elitismo e o muito mau.
Luísa Teresa Ribeiro
Eu não acho que o Preço Certo em Euros seja um programa mal feito. Numa televisão pública, aquilo faz sentido. Já não faz sentido, numa televisão pública, a Família Super Star. Concordo é que, se calhar, o grande problema do serviço público é que há demasiados preços certos euros.
O que eu sinto, e para mim não faz sentido, é que 90 por cento das notícias feitas pela televisão pública ou pelo serviço público são noticias que saem de outros órgão de comunicação social. Um serviço publico tem ser o leme, farol, da informação.
Pedro Antunes Pereira
A RTP tinha um conjunto de correspondentes, de estúdio regionais e de possibilidades que não está a ser de todo aproveitado.
Relega-se a informação regional para um programa em horas pouco próprias para ser visto e nos grandes espaços de informação não se reflecte esse trabalho do todo nacional. Quando vemos da RTP, ainda continuamos a ver a informação centrada em Lisboa e no Porto, e o resto é ainda paisagem.
Ou então vão os sítios quando todos os outros vão: quando há mortos, quando vai algum governante ou alguma personalidade importante…. Curiosamente, também nunca pegam pela questão principal pelo qual a personalidade foi à “província”. Encontram sempre uma pergunta de âmbito nacional ou internacional para que a cidade ou a região nem sequer sejam notícia.
Também na informação há um longo caminho a percorrer, mesmo na cobertura que é feita do país.
Por estes dias, toda a gente tem má imagem da informação… No caso particular da RTP, o episódio José Rodrigues dos Santos não ajudou.
Luísa Teresa Ribeiro
A agência de comunicação governamental tratou de localizar temporalmente a pressão há três anos. Fez o papel dela, mas sinceramente não acredito que três anos depois não haja pressões informativas na RTP, porque há.
Pedro Antunes Pereira
Creio que Santos Silva, que quando lhe perguntaram sobre se os assessores falavam com os jornalistas e se telefonavam para as redacções, disse que é para isso que eles são pagos e se não telefonm alguma coisa está mal. É legítimo de quem faz a pressão. Agora se o jornalista ou se a direcção determinado órgão de comunicação cede ou não às pressões, isso é outra história….
Luísa Teresa Ribeiro