“Essa gente não se prepara antes de ir para ali fazer figuras tristes?”
De comando na mão, parei para ver um programa supostamente de cultura geral. O apresentador tinha à sua frente uma concorrente que nasceu na África do Sul, logo, segundo disse, bilingue. A concorrente disse que sim, que veio da África do Sul para Portugal com dois anos. Bilingue, portanto…
Depois, a concorrente estudou na UTAD. O apresentador associou logo à tradição típica dessa universidade, que é o Enterro da Gata. A senhora lá emendou que não, que isso é em Braga (Universidade do Minho).
Segue-se a introdução de uma “estorieta” em que a concorrente conduziu um táxi porque o taxista estava ou alcoolizado ou tinha fumado um charro. A volta que o apresentador deu para falar no charro foi tal que acabei por não perceber se esse foi o verdadeiro motivo pelo qual a concorrente teve de conduzir o táxi para chegar a casa em segurança.
Ainda vi a senhora a errar a resposta e desisti. Se calhar é falta de hábito e toda a gente percebeu tudo e até achou muito natural e divertido. É, provavelmente deve ser culpa minha… Mas, mesmo assim, lamento, desliguei. Não consegui aguentar tanta qualidade no serviço público…
Na altura, só me lembrava da indignação de uma grande amiga minha quando, há uns tempos, viu uma apresentadora a falar “DO” Joy Division, como se o grupo e Ian Curtis fossem exactamente a mesma coisa.
A dúvida da minha amiga, que partilho inteiramente, era: “Essa gente não se prepara antes de ir para ali fazer figuras tristes?”.
Eu, acho que não preparam.
Mas, também, haverá outros factores um pouco mais graves: Formação? Cultural Geral?
Ainda ontém ouvi uma animadora de rádio (nacional) anunciar: “…agora fique com esta DOS The Beatles.”
(Quando é que alguém explica a esta gente que “the” é artigo definido em inglês?)
Triste até pode ser a figura dos intervenientes na televisão, tal como toda a gente, não são infalíveis, mas mais triste são estes comentários dos senhores sabe tudo. Será que da televisão só conseguem ver estes erros? É certo que são erros, mas coisa de pouca importância. Um comentário interessante teria de dizer muito mais. Não diz, porque o comentador apenas se está a aproveitar de uma falha, básica até, para se achar superior. Quando alguém quer realmente elevar o pensamento, não vai procurar a televisão para o fazer. Esperar divertir-se muito a ver televisão, é relativo, depende do que procura. Se nada de especial, apenas uma companhia barulhenta, então a televisão pode servir. Pessoalmente não vejo televisão porque não aprecio histerismos colectivos.
Apanhou-me, hoje, bem disposto porque não tenho por hábito responder a quem se refugia em anonimatos. Posição esta que se alarga também, por exemplo, aos números privados do telefone: não atendo.
Antes de mais deixe-me dizer que me chamo Pedro Antunes Pereira, sou jornalista de profissão e um dos intervenientes neste blog.
Em relação ao seu comentário só lhe quero dizer duas coisas.
Primeiro: concordo apenas com a expressão “é relativo” (inclusive o seu comentário). As figuras tristes são relativas, a infabilidade é relativa, os comentários dos senhores sabe tudo são relativos, dizer muito mais é relativo, achar-se superior é relativo, não elevar o pensamento a ver televisão é relativo, uma companhia barulhenta é relativa, não ver televisão é relativo, histerismos colectivos são relativos.
Segundo: deixe-me ter a ousadia de lhe dar uma sugestão. E que tal perder um bocadinho de tempo (e se não vê televisão deve ter um restinho guardado) e ler os posts foram sendo colocados neste blogue, DESDE O INÍCIO? Estou em crer que perceberia o enquadramento do post que teve a amabilidade de comentar.
Já sei, vai assumir a postura dos senhores sabe tudo e não vai assumir o seu erro. Mas, sinceramente, eu até o percebo. A incoerência é necessária até na asneira. É disso que estamos rodeados e habituados. Mas fique certo que não é disso que queremos fazer neste blogue. Somos pelas asneiras, pelos erros e somos pelas críticas, nossas e dos outros. E olhe que eu não tenho problema nenhum em assumir os meus erros e dar a cara pelas minhas opiniões. Mas, já sei, é tudo relativo. E nisso eu estou de acordo consigo.
Caro/a anónimo/a,
Não é certamente um sentimento de superioridade que me move, não procuro a televisão apenas para me rir, não estou à espera que os outros se estampem ao comprido para que eu possa dar uma boa gargalhada e não sou avessa às críticas.
Quer melhor prova de que aceito que o meu trabalho seja diariamente escrutinado do que ser jornalista num jornal diário e assinar com o meu nome profissional textos em dois blogues?
Sou muito pouco dogmática. Penso que o pior que se pode fazer é optar por não debater as questões. O que nos propomos neste blogue é, justamente, discutir o que se passa no mundo da comunicação, seja bom, mau ou assim-assim.
Seja bem-vindo/a a bordo, pois só assim conseguiremos alargar o debate. Obrigada e um bom 2008, cheio de muita e boa comunicação.
Pedro Antunes,Pedro Antunes,
O “relativo” usado por si, é completamente fora do contexto. O comentário não foi anónimo de propósito, até porque não me dirijo a ninguém em especial. Peço desculpa se exagerei, mas quando se discorda profundamente é essa a tendência.
Bom Ano