Wednesday, January 30, 2008

Os Blogues Não São Informação

É recorrente nas conversas entretidas da blogosfera e partem sempre da mesma premissa: serão os blogues informação? A resposta é simples: não são. Ponto final. Já aqui, nos primórdios deste Trio, a

Luísa e eu próprio, tínhamos lançado alguns dados para a discussão. Numa Avenida Marginal, Pedro Romano disserta sobre o assunto. Concordo com o miolo discordo absolutamente da pergunta inicial.

1º Os blogues são, genericamente, fontes de informação e como tal carecem de confirmação. Ao contrário dos sítios dos jornais, revistas e afins onde há a propagação de notícias, sejam saídas de agências noticiosas, sejam editadas pelo corpo redactorial (a edição de uma notícia, pressupõe já o seu tratamento, a sua confirmação, a sua validade).

2º A informação é elaborada por profissionais.

3º Os blogues são óptimos espaços de troca de ideias, de vinculação de posições, mas são sobretudo, espaços individualizados. Ora, uma notícia necessita sempre de um pró e de um contra para ser informação. Aliás, este Trio é uma prova cabal disso mesmo. Para além de ter uma componente pedagógica (e eu não gosto nada da palavra) tentando lançar ideias e opiniões para reflexão dos profissionais de comunicação é, sobretudo, um espaço de opinião. O simples acto de copy e paste de partes de um artigo, estudo ou outra opinião, condiciona logo qualquer definição mais alargada deste Trio, resumindo-se a um blogue de opinião.

4º Concordo em absoluto que, a grande maioria dos jornalistas não se dá bem como os blogues. E não se dá porque não está habituado a um escrutínio constante àquilo que escreve. Lida mal com a crítica. E, mais uma vez, a prova é este blogue, que a classe jornalistíca regional não concorda e olha para ele com sobranceria. “Quem são estes para dizerem isto?”. Só esta afirmação é o garante da evolução urgente que os profissionais têm que fazer no sentido de tornarem mais transparentes os seus actos de escrita. A auto-crítica, o valor notícia (de que falarei adiante), o rigor e a disciplina não podem ser alvo de assobios para o lado, nem podem estar metidos na gaveta da conveniência.

5º O valor de uma notícia não é definido por bloggers. É definido por editores e por jornalistas. Para, por exemplo, o Avenida Central a notícia das conversas improváveis pode ser relevante mas para o Bracara Augusta pode não ser. Como para o Bracara Augusta o báculo do arcebispo pode ser merecedor de uma discussão pública e para o Avenida Central pode não merecer mais do que um rodopé. (Isto são só exemplos hipotéticos). Ora com a editoria de um jornal passa-se precisamente a mesma coisa. Porque o valor-notícia varia em função dos propósitos editoriais das publicações. Se o Público avança mais depressa para a divulgação do um estudo, o Correio da Manhã avança mais depressa para a morte de uma qualquer pessoa.

6º A discussão deveria, por isso, centrar-se no valor-notícia. A importância deste conceito é dada pelos leitores onde estão inseridos os bloggers. Isto é, um blog é um local de escrutínio do valor de uma notícia (concordo/não concordo; está bem feito/está mal feito) da mesma forma que as páginas de leitores o são, acrescentando, algumas vezes, mais valor a essa informação, tornando-se fontes privilegiadas de informação. A questão do anonimato é o calcanhar de aquiles da blogosfera. Os jornais, neste ponto, já estão mais à frente.

7º A má-relação entre blogues e jornalistas deve-se, sobretudo, ao aumento do conhecimento por parte dos primeiros das práticas e dos modos de produção da informação dos segundos. O uso e abuso de agências de informação; a realização massificada de informação, muitas vezes estéril e oca e a falta de organização pessoal e profissional dos jornalistas faz com estes usem e abusem de desculpas. Desculpas essas que vão sendo questionadas gradualmente, desarmando os profissionais de comunicação. Ora, se há grupo que gosta de se sentir seguro e insuspeito são os jornalistas. O questionamento dos seus métodos (alguns duvidosos) faz com que a sua relação com os blogues, por exemplo, seja de distanciamento e mesmo de pretensa indiferença. Mas o caminho faz-se caminhando e mais tarde ou mais cedo, tanto blogues como jornais irão encontrar o ponto de equilíbro na sua convivência, ocupando cada um o seu lugar, de forma transparente, visível e nominal.

Posted by Pedro Antunes at 15:48:24 | Permalink | No Comments »

“A arte de mentir”

É absolutamente obrigatório ler (mesmo com uns dias de atraso) o artigo de António Barreto intitulado “A arte de mentir”, publicado no passado domingo no Público e que pode ser encontrado aqui. É um excelente retrato do mundo da assessoria e do jornalismo que (não) se faz. Para ler, pensar e quem sabe agir…

Estas são algumas das ideias:

«Escrevem notícias com todos os requisitos profissionais, de modo a facilitar a vida aos jornalistas. Mentem de vez em quando. Exageram quase sempre. Organizam fugas de imprensa quando convém. Protestam contra as fugas de imprensa quando fica bem. Recompensam, com informação, os que se conformam. Castigam, com silêncio, os que prevaricaram. São as fontes. Que inundam ou secam».

«Os jornais parecem-se uns com os outros. As notícias são quase iguais. As agendas das redacções são gémeas. Salva-se, desta uniformidade, aqui e ali, quem assina o que escreve. Os noticiários das televisões têm agendas iguais. E alinhamentos de notícias também. Os directos, grande vício da televisão portuguesa, são iguais em todos os canais. Cada vez mais, a informação está previamente organizada, não pelas redacções, não pelos jornalistas, mas pelos agentes e pelos assessores. Quem tem informação manda em quem investiga, escreve e transmite. Grande parte da informação é encenada e manipulada, de acordo com as conveniências. [...] O poderio das organizações de comunicação é avassalador. A opinião pública não tem meios para escolher e resistir. Só a independência dos jornalistas poderia fazer frente a este domínio inquietante. Mas esta é um bem raro. Até porque os empregos na informação são cada vez mais precários».

«Nas redacções, povoadas hoje por jovens estagiários e inexperientes, mas também por seniores preguiçosos, publicar directamente as notícias assim preparadas, ainda por cima por jornalistas e antigos jornalistas treinados, é a solução mais simples. [...]».

Posted by Luísa Teresa Ribeiro at 01:51:11 | Permalink | No Comments »