Formatos Musicais, Programas de Autor… e agora?
(É verdade. Uns tempos arredio, mas de volta… cabe-me 33.3% desta “sociedade”… vamos lá alimentar a caldeira.)
Ainda me lembro.
Já lá vão uns bons anos (nem me atrevo a dizer quantos) desde o tempo em que eu, nas minhas primeiras emissões de rádio, caprichava a apontar os discos de vinil em pré-escuta, para a seguir desfrutar do prazer de uma mistura ao sabor da intuição.
Vivíamos a era dos programas de autor. Lembro-me de, na minha infância, acompanhar algumas grandes referências dos anos 80, como o “Rock em Stock” ou o “Discoteca“. Que grandes momentos de rádio!
Homens como Luis Filipe Barros ou Adelino Gonçalves não se limitaram a marcar uma geração de “radio-comunicadores”. Eles ensinaram Portugal a consumir a musica pop, a viver nela, num contexto, também ele pop, da rádio no pós-25 Abril.
A época dos programas de autor trouxe algumas verdadeiras pérolas da comunicação em rádio. De cariz musical, cultural, informativo, ou qualquer outro, cada programa tinha a sua identidade independente, normalmente conferida e marcada pelo protagonista que conduzia a emissão.
Nos tempos mais recentes, vestígios dessa concepção ainda persistem.
Não será dificil prever que, por exemplo, o “Oceano Pacífico” não o será… tão pacífico sem o João Chaves.
Há poucos anos atrás, já no advento dos formatos musicais, percebeu-se que substituir Pedro Tojal no programa da manhã da RFM, obrigou a uma reformatação de todo o programa.
O que são, afinal de contas, formatos musicais?
São estações de rádio formatadas em torno de determinados estilos musicais, criteriosamente escolhidos para captar auditórios de determinados target’s.
O que hoje nos é oferecido pela esmagadora maioria das estações de rádio (principalmente as de cobertura nacional ou parcialmente nacional), são formatos musicais, direccionados a determinados públicos, captados por sequências repetidas de musicas, organizadas em “play-list”.
Nesta concepção o comunicador perdeu protagonismo, graças à afirmação da personalidade da rádio no seu todo, mais definida do que nunca.
Nesta era, regista-se ainda um fenómeno de mercado, com grupos de rádio a articular-se numa lógica de portefólio. Por exemplo, o Grupo Renascença tem a Mega FM (dos 15 aos 25 anos), a RFM dos (dos 25 aos 45 anos) e a RR (dos 45 aos 65 anos) concorrendo nestes target’s com a Media Capital, que detém a Cidade FM, Comercial e Rádio Clube Português.
E agora? Para onde caminhamos?
A mim, parece-me que, continuando neste processo de “americanização” social, também na rádio, o futuro terá ouvintes exigentes, críticos e cansados de lógicas musicais repetitivas. Acredito que a ”Geração iPod ou MP3” exigirá da rádio um papel complementar, que não seja o actual, de ruído de fundo.
Um futuro com o conceito de “talk-radio” (e não somente de news-radio), com espírito crítico, interventivo e reflexivo, será o que, provavelmente, gerará audiências daqui a um bom par de anos.