«A imprensa regional é uma coisa séria»
Sempre que há um qualquer encontro ou seminário que reúna os vários títulos da imprensa regional repetem-se as mesmas verdade, os mesmos queixumes, as mesmas necessidades de apoio, Todavia, parece-nos que a imprensa regional, se bem que se tenha registado uma evolução na última década, precisa de dar o salto em frente e, substituir, por exemplo, as necessidades de subsídios pelas necessidades de investimento.
A imprensa regional, seja ela de cunho semanal, mensal, quinzenal ou até de
carácter esporádico, tem o seu lugar, tem a sua função, tem o seu papel. Mas não queiramos que esse papel seja um papel menor. Perdoem-me a ousadia, mas choca-me ouvir falar babadamente dos nossos emigrantes, que lêem activamente os nossos jornais regionais, umas modestas folhas de papel, através das quais se ouve dizer, vezes sem conta, que mantêm acesa a chama que os liga à sua terra, sabem quem nasceu ou quem morreu, sabem novas dos amigos, dos vizinhos e da gente lá da terra. Que isto é verdade não temos dúvida; temos, efectivamente, dúvida se os nossos emigrantes gostarão assim tanto de ter acesso a um conjunto de notícias cortadas e recortadas de outros jornais. Muitas vezes, sem dúvida, feitas com boa vontade e com todo o empenho, mas pobres no trato.
Será que esses emigrantes não teriam mais orgulho na sua terra, nas suas gentes e no seu jornal, se em vez de uma “folha de couve”, como já ouvimos designá-los, oferecêssemos um produto de qualidade, exigente e capaz? Os emigrantes não podem ser desculpa, temos antes que ter a dignidade, enquanto imprensa regional, para poder estar com eles.
A imprensa regional é, em nosso entender, uma coisa séria, é um desafio importante, demasiado importante para se andar, como há muitos que andam por aí, a brincar aos jornais e aos jornalistas, ao mesmo tempo que falam em sacrifícios, em “amor à camisola”, em carolice, em esforço pessoal e familiar.
Em nosso entender, a imprensa regional precisa de ultrapassar este estádio nubloso, onde há de tudo e cabe tudo, para se assumir com outra postura, com outra seriedade, com outro dinamismo, com outro profissionalismo. [...]»
Manuela Ventura, Diário de Aveiro
Esta intervenção foi feita no I Congresso de Imprensa, uma realização conjunta da Associação de Imprensa Não Diária e da Associação de Imprensa Diária. O congresso foi em 1998. Será que o panorama mudou significativamente?