A derrocada de um prédio no centro de Braga há uma semana é um bom pretexto para algumas reflexões sobre a cobertura noticiosa.
Casos como o da rua dos Chãos remetem mais facilmente para o imaginário que normalmente é associado ao trabalho jornalístico do que a imagem do jornalista sentado numa cadeira a tratar comunicados. E, no entanto, são duas faces da mesma moeda.
O trabalho no terreno, sobretudo num cenário em que há mortos, é sempre complexo, mormente para quem tem de fazer a cobertura em cima do acontecimento. E este acidente – à semelhança do que se passa quase diariamente com outras questões – mostrou que muito mais pode ser feito nas versões on-line dos meios de comunicação social, que em alguns casos mais não são do que o repositório dos takes da Agência Lusa.
Especialmente em situações em que há a lamentar a perda de vidas humanas, há sempre uma linha muito ténue, que pode ser facilmente pisada, entre o que é informar com base no interesse público e o espectáculo. Qual é o interesse público de divulgar as fotografias do casamento da pessoa que faleceu? Qual é o interesse público de mostrar o rosto dos cadáveres dentro dos caixões? Qual é o interesse público de expor as lágrimas da família de alguém que, por exemplo, se suicidou ou foi condenado por um crime?
Na minha aldeia, os mais velhotes costumam dizer que «na morte somos todos iguais». Mediaticamente não somos, mesmo que seja na hora da morte. Desde logo porque a personalidade envolvida é inevitavelmente um dos critérios de noticiabilidade, Entre uma personalidade conhecida e um “anónimo” é fácil de prever quem é que vai merecer mais atenção jornalística. Alguém imagina o pivô de abertura de um Telejornal a dizer “morreu o Zé Manuel de Algodres”?
Um dos riscos da actividade jornalística é a banalização das situações. Todos os dias se faz a ronda, isto é, telefona-se para as forças policiais e bombeiros para saber se há “casos do dia”, e muitas vezes ouve-se uma voz que diz que se registaram acidentes com mortos, assaltos com feridos ou incêndios com elevados prejuízos materiais. A desgraça faz parte do dia-a-dia de trabalho de quem está nos dois lados da linha. Isso pode fazer com que as vítimas se transformaram em mais uma “ocorrência”, sem nome e sem rosto. Apenas e tão só mais um/a.
Também não nos podemos esquecer dos factores de ordem cultural que inevitavelmente enquadram e condicionam o trabalho dos jornalistas. Quais seriam os títulos se debaixo dos escombros tivessem ficado três imigrantes ilegais em vez de três homens de uma freguesia de Ponte de Lima?
Por outro lado, em relação ao tratamento jornalístico dos acontecimentos, é forçoso pensar na distância geográfica. O ideal seria que os “media” tivessem meios para fazer uma cobertura equitativa do seu território de abrangência. Na realidade, isso muitas vezes não acontece, o que faz com que haja um maior volume de informação sobre as áreas onde se concentra a maior parte dos jornalistas, por norma a sede do órgão de comunicação.
Para além da vertente prática da deslocação dos jornalistas, a esta questão está associada a (des)valorização que é feita do que está para além dos horizontes conhecidos. E aí, para quem vê o país a partir da capital, a queda de uma árvore em Lisboa será provavelmente mais importante do que uma fábrica qu crie centenas de postos de trabalho em Viana do Castelo. Não será difícil imaginar as diferenças de cobertura de dois acontecimentos exactamente com as mesmas características só que um em Lisboa e outro, por exemplo, em Portalegre…